Skip to content

Fatos e Causos das Gerais: Igrejinha da Pampulha

15/05/2010

Belo Horizonte é uma cidade nova se comparada a outras cidades históricas do estado, mas nem por isso a cidade deixa de ter seus causos, seus mistérios. A seção Fatos e Causos das Gerais de hoje destaca a história da Igreja de São Francisco de Assis, a famosa Igrejinha da Pampulha, um dos principais símbolos de Belo Horizonte. Esta marco da arquitetura brasileira e principal cartão postal da cidade já foi odiado pela sociedade belorizontina que não entendia todas aquelas expressões modernas que a obra se propunha, entre suas curvas e painéis.

O texto foi extraído da coleção “BH. A cidade de cada um”, da obra intitulada “Pampulha” de autoria de Flávio Cavalcante. Com um texto envolvente, Calvalcante revela fatos que nem os mineiros conhecem. Confira.

A Igrejinha

Ora diabos! (isto é, Deus me perdoe!). Mas como sagrar uma igreja feita por dois comunistas? Um, ainda por cima, ateu, esse arquitetozinho vermelho, desprovido de inspiração divina que eleva os verdadeiros artistas aos céus da manifestação gótica ou barroca, essa sim, autênticas igrejas do Senhor. O outro, pelo menos, tem fé, embora esta devoção a São Francisco seja meio suspeita e claro, muito menor que qualquer devoção a Nossa Senhora. Mas mesmo a fé desse prefeito sorridente não parece de muita solidez, pois onde já se viu permitir a construção de uma Igreja Batista em plena praça Raul Soares, sede do II Congresso Eucarístico Nacional de 1936? Além do mais, a tal igrejinha não obedece as normas de Direito Canônico e da Arquidiocese.

Galpão, revestida como banheiro, Poleiro de Satã. Tem a foice a o martelo claramente evocados no conjunto torre invertida, marquise e curva na cobertura. Moderna demais. Onde já se viu um cão no altar? Nudez explícita nos painéis do batistério. Santos disformes. Chocante. Templo do diabo.

Se o cruzeiro isolado nos lembra a Capela de Padre Faria em Ouro Preto, a torre lateral é peculiar às igrejas e capelas de Diamantina, ela é um jogo sábio das características mais essenciais da composição livre e rica dos espaços, na melhor e mais pura interpretação dos princípios que podem ser reconhecidos nas obras barrocas de Minas. A assimetria  sistemática e a flexibilidade tanto do conjunto quanto os detalhes traduzem-se numa extraordinária impressão de leveza, harmonia, clareza da concepção. O São Francisco do altar-mor da Pampulha, descarnado, como ilustração da anatomia, parece exprimir o choque do jovem pintor de então. É a sua descoberta de que São Francisco era um homem como outro qualquer – mas nem ali acho que Portinari conseguiu despojar um santo de santidade. Ao contrário, O observador do quadro tem a impressão de que o pintor lhe diz: “Franscisco tinha vísceras…”

Juscelino queria apenas homenagear a seu pai através do seu santo de devoção, e considerando o imenso sentimento religioso e catolicismo de nosso povo, abençoar as obras da Pampulha com a presença sagrada. Pois bem, a igreja ficou como templo do diabo de 44, quando ficou pronta, até 59, quando foi sagrada. Nesse meio tempo antes que algo de mau lhe acontecesse, em 47, ela foi tombada, em caráter preventivo, por preposição do arquiteto Lúcio Costa, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, para preservar, segundo suas próprias palavras, “o valor exepcional desse monumento”. Nenhum outro monumento foi tombado em tão tenra idade.

Oscar Niemeyer minimiza as evocações das formas dizendo-as ora inspiradas oras inspiradas nas curvas da paisagem brasileira, ora no próprio barroco, ora em nada disso, mas apenas no mero capricho e gosto pelo movimento. Mas as formas não são mudas e a Arquitetura nunca é vazia. Ela nos propõe a experiência espacial significativa e nos remete a mundos inusitados. Era exatamente isso que tornava a igrejinha tão rejeitada. Podiam achar que sua rejeição acontecia porque era moderna demais, que os painéis de Portinari eram iconoclastas, que as curvas de Paulo Werneck eram absoluta falta de religiosidade, mas ao fim e a cabo, era tudo isso e nada disso isoladamente. Faltava a igreja algo que a religião católica não podia admitir. Faltava-lhe drama.

A igrejinha da Pampulha era por demais alegre e por demais otimista. Tinha azul demais, alegrias de peixes e pássaros, movimento, ondas, brilhos – nem a luz era dramática: iluminava o painel do altar com delicadeza e sobriedade. Até o cachorro no altar – que segundo Portinari, estava substituindo um lobo, por ser o cão um animal mais presente no cotidiano brasileiro – era suave e estava ali com aquela expressão vaga e triste de cachorros, mas em nenhuma devoção especial ao santo ou a qualquer personagem em volta. Tantas curvas eram as montanhas de Minas, tanta luz era a presença de Deus subitamente invocado para salvar as almas, retirar o fogo dos infernos as almas pecadoras.

Telas de Portinari e curvas de Niemeyer encantam

Telas de Portinari e curvas de Niemeyer encantam

As curvas eram só movimento, uma celebração as possibilidades expressivas do concreto armado, um jeito brasileiro de fazer arquitetura. Eram fé moderna num mundo rico de responsabilidades tecnológicas e expressivas que se abriam. Eram a fé no homem e na razão, muito mais do que fé em um Deus distante. A igrejinha celebrava antes a criação do que o criador, celebrava o júbilo de estar ali, a beira da represa criada pelo homem, refletida nas águas, exposta à bela e terna luz da Pampulha. O Deus que habitava a igreja tinha uma placidez que em nenhum momento da história havia sido atribuída aos deus católico, sempre bravo, justiceiro, ou misericordioso, sempre pronto a perdoar aqueles que reconhecessem pecadores. Mas não havia pecado na Pampulha, não havia pecado na razão. O espírito que ali habitava era o esprit nouveau.

Se não havia pecado, decerto então haveria de se criar algum e a penitência seria longa.

Hoje a Igrejinha da Pampulha, que compõe o conjunto arquitetônico da Pampulha, faz parte de um dos principais roteiros da capital mineira.

Se você ainda não conhece Belo Horizonte vale a pena agendar uma visita e descobrir esta e outras histórias que encantam turistas do mundo inteiro. A D’Minas Turismo está a disposição para levá-lo para conhecer a Igrejinha e outras maravilhas das Gerais.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: